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Uma Noite de Crime: A fronteira | Crítica


James DeMonaco acha timing perfeito para contar mais uma história de sua já desgastada franquia.

Sempre que eu for falar sobre Uma Noite de Crime eu preciso começar por quanto esse nome é uma escolha infeliz. Voltamos ao nome original “The Purge” (O Expurgo), uma noite onde as pessoas expurgam os seus desejos, suas frustrações e sua agressividade acumulada durante todo ano, para que em tese se tornem uma sociedade mais pacífica depois, indo muito mais profundo do que apenas uma noite para cometer crimes.

A partir disso chegamos no ponto do subtítulo que também é infeliz, A Fronteira, ao invés do título original The Forever Purge (O Expurgo Para Sempre). Pois bem, usar essa denominação para o filme é simplificar tudo que o roteiro cria, a apenas uma barreira que divide territórios, nesse caso com o México, já que o filme utiliza essa fronteira em dois momentos distintos. Claro que ainda podemos buscar um sentido de fronteira muito além disso, e talvez possa ser apenas uma birra minha, mas o Expurgo é mais que uma noite, é uma ideia, e ideias se perpetuam mais forte do que qualquer crime que possamos cometer.

Em Uma Noite de Crime: A Fronteira conhecemos Adela (Ana de la Reguera) e seu marido, Juan (Tenoch Huerta), um casal de imigrantes que vivem no Texas. Juan trabalha como ajudante de uma fazenda para a rica família Tucker e um dia ele impressiona o patriarca Tucker, Caleb (Will Patton), ao domar um cavalo selvagem. Mas isso alimenta a raiva de seu filho Dylan (Josh Lucas), e já a existência nele da ideia que os “verdadeiros” americanos não deveriam se misturar com imigrantes. É aí que o filme nos apresenta seu real propósito, mostrar como o sonho americano é opressor. O longa até começa com propagandas sobre viver o sonho americano, muito difundidas ao longo dos anos, e nela faz uma alegoria sobre o terror que essa ideia se transformou.

Quando a noite do Expurgo chega mais uma vez as diferenças sociais são colocadas a mostra pelo criador da série e roteirista do longa, James DeMonaco. Enquanto a família Tucker fica protegida por seus sistemas de segurança em sua casa, todos imigrantes da cidade se unem para pagar uma espécie de milícia para protege-los em um lugar só.

Esse conceito já é bem explorado desde o primeiro filme, só que em A Fronteira é apresentado de uma das melhores formas que DeMonaco fez durante a franquia. Isso porque esse quinto filme aproveita muito do momento recente que os Estados Unidos viveram durante o Governo Trump, inclusive faz críticas a ele, e principalmente aos seus apoiadores.

Na manhã seguinte ao Expurgo, uma gangue mascarada de assassinos ataca a família Tucker, incluindo a esposa de Dylan (Cassidy Freeman) e sua irmã (Leven Rambin), forçando as duas famílias a se unirem e lutarem enquanto o país se transforma em caos e os Estados Unidos começam a se desintegrar em torno deles.

Essa parte é onde o filme me ganhou, principalmente por nos mostrar um futuro distópico, mas que já não parece tão distópico assim, já que discursos que vemos no filme pró armamentistas são assustadoramente reais, principalmente saindo de governantes que, junto com as redes sociais, tem dado voz a esses personagens na vida real. E por mais que DeMonaco se dirija aos trampistas, já sabemos o quanto cabem para nós aqui também.

A direção dessa vez ficou a cargo de Everardo Gout, que já trabalhou em séries como Luke Cage, Expresso do Amanhã e The Terror. Aqui ele constrói muito bem os elementos de suas cenas, unindo sempre uma boa fotográfica, design de produção e a trilha sonora para criar um ambiente de um faroeste mais moderno, inclusive com o filme falando muito em cowboys. Além disso ele ainda faz boas cenas de violência urbana, mesmo que eu sinta falta um pouco da brutalidade dos primeiros filmes.

A franquia nunca exigiu muito de seu elenco, a interpretação por trás de The Purge vem do roteiro do que de seus personagens, mas a série sempre soube trazer rostos conhecidos para que possamos nos encontrar dentro do filme. Em A Fronteira não é diferente, já que vamos lembrar de Josh Lucas de Ford vs Ferrari, Will Patton de Halloween, Ana de La Reguera de Cowboys e Aliens, Cassidy Freeman da série da HBO The Righteous Gemstones e Leven Rubin de Jogos Vorazes. Mas por fim o longa dá alguma coisa a mais para fazer para poucos personagens, talvez Josh Lucas e Tenoch Huerta tenham um drama mais focado neles no começo, e entregam bem o que o roteiro pede.

Mesmo assim o longa não sabe trabalhar bem o background de seus personagens. Principalmente na relação familiar dos Tucker, que gera alguns momentos quase constrangedores no começo, graças ao comportamento de Dylan, mas que acabamos sabendo pouco deles para entender seus dilemas, caindo numa vala comum de alguns conceitos prévios para esse tipo de personagens. Além de criar bons personagens a abandoná-los durante o longa, seja por mortes que acabam não sendo sentidas, ou de o personagem entrar do nada, e sair mais rápido ainda.

É no terceiro ato que o filme se afasta muito de coisas que eu gosto na franquia. O longa leva para uma grande fuga, onde os personagens precisam correr para fugir do que a América se tornou. Nisso os espaços ficam maiores e a brutalidade que existe na franquia se perde um pouco. The Purge sempre trouxe uma pessoalidade nas mortes, como quando você se esconde e alguém invade sua casa, ou você vai para a rua e se depara com os horrores do Expurgo. Tudo é muito próximo, muito pessoal e até mesmo muito passional, o que não senti no final de A Fronteira.

A própria franquia já mostrou o quanto é difícil criar histórias novas para ela, até mesmo o último filme The First Purge não funcionou, mesmo que ao se dedicar a contar a origem do Expurgo pudesse instigar a curiosidade de seus fãs, acabou não alcançando esse objetivo de forma satisfatória. É então que A Fronteira chegou cheio de suspeita, mas dentro de sua premissa conseguiu desenvolver uma crítica social bem colocada.

Ao mostrar a quebra do sistema, o novo longa levou o “cidadão de bem” americano a tela do cinema, mostrando que o “respeito” pela Noite de Crime já não existe mais, e os perigos que essas ideias trazem podem levar a destruição da sociedade como a conhecemos.

Um Noite De Crime: A Fronteira acaba mostrando que mesmo em ideias cansadas, é possível encontrar a forma certa de desenvolver uma história, principalmente se você souber usar o tempo certo para contá-la.


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